Daniele Gomes de Araújo, presidente do Sindirepa, revela sobre escassez de técnicos automotivos, parcerias com SENAI e SESI, gestão de processos e sustentabilidade.
Daniele Gomes de Araújo, presidente do Sindicato da Indústria de Reparação de Veículos e Acessórios dos Campos Gerais (Sindirepa), revela em entrevista como o setor oscila entre oportunidades e desafios profundos, desde a falta crônica de mão de obra qualificada e o acesso restrito a informações técnicas das fabricantes, até a necessidade de reinvenção administrativa diante de uma nova tributação que entra em vigor em 2026.
Com demanda fragmentada entre oficinas especializadas e multimarcas, a região enfrenta o desafio de se qualificar para os híbridos, enquanto se prepara para os 100% elétricos. Daniele expõe sobre as dificuldades geradas pelas montadoras e concessionárias que monopolizam dados, deixando reparadores independentes “engessados” e dependentes de contatos informais.
A presidente do Sindirepa também aponta a mentalidade remanescente do passado como obstáculo à modernização e destaca as três prioridades do Sindicato para 2026: estimular o associativismo, fortalecer a gestão empresarial e acelerar a capacitação para híbridos e elétricos. A entrevista revela ainda como o Sindicato, em parceria com a FIEP, Senai, SESI e iniciativas como a Jornada da Produtividade, tenta blindar as oficinas contra exclusão tecnológica.
- Como está atualmente o mercado de reparação de veículos nos Campos Gerais? Os serviços de manutenção cresceram 52,5% no Brasil. Esse comportamento se reflete na região dos Campos Gerais?
Daniele Araújo: Conversando com nossos grupos de empresários e associados, alguns relatam uma diminuição considerável na demanda por serviços. Outros estão bem ativos, inclusive com agenda superlotada. A variação de clientes é muito grande. Existem perfis diferentes de oficinas: algumas trabalham apenas com particulares, outras com particulares e empresas, ou ainda com frotas empresariais. Dependendo do nicho em que a oficina atua, o comportamento do mercado em relação aos pedidos de serviço varia.
Isso é critério para clientes, seguradoras e empresas de frotas, que prezam pela qualificação e qualidade na gestão e na entrega de serviços. As fabricantes focam nas concessionárias. Como prestadores autônomos, temos grande dificuldade no acesso à informação para nos mantermos e entrarmos nesse novo cenário. Há uma deficiência muito grande na obtenção de informações restritas às fabricantes, que repassam isso apenas às concessionárias, deixando-nos engessados e recorrendo a cadastros em plataformas fora do Brasil para acessar essas informações.
- O que mais interfere no movimento das oficinas de reparação de veículos, atualmente?
Daniele Araújo: Isso está muito relacionado à profissionalização das oficinas. Uma oficina mais profissionalizada e capacitada opera em um nível diferenciado e não encontra muita dificuldade na prestação de serviços. No entanto, o mercado está oscilando bastante. Verificamos que alguns clientes optam por serviços de forma cautelosa, pois quando explicamos o contexto geral do veículo, elas hesitam e raramente fazem tudo o que precisa ser feito.
- A situação econômica do país influencia neste cenário?
Daniele Araújo: Sim, isso vem da instabilidade no governo e do medo das pessoas em relação ao futuro, o que faz com que segurem o que podem nas despesas, principalmente no caso de clientes particulares. Por outro lado, quando a oficina atende empresas, a situação é um pouco diferente, pois não tem como adiar a manutenção, já que veículos empresariais são usados por terceiros.
- E considerando a redução nas compras de veículos zero-quilômetro neste ano, isso não impactaria de forma mais expressiva para a reparação de veículos?
Daniele Araújo: Quanto maior a quilometragem do veículo, maior a gama de serviços necessários. Os veículos zero-quilômetro chegam rapidamente às oficinas devido ao prazo de garantia, que varia de três a cinco anos. A grande maioria das frotas não tem garantia da fabricante, pois optam por negociações diferenciadas, às vezes nacionais, renunciando à garantia de concessionária para obter um valor mais acessível na compra. Assim, esses veículos chegam às nossas oficinas, já para as primeiras revisões, especialmente aquelas que atendem esse nicho.
Essas oficinas expandiram e se profissionalizaram na gestão administrativa, empresarial e fiscal, demandando conhecimentos além do técnico de conserto, como tecnologia, credibilidade no mercado, setores administrativos, de compras e gestores qualificados. Há também exigências fiscais: não basta realizar o serviço e receber; é preciso faturar, gerenciar impostos, cobranças, emitir boletos ou lidar com prazos de pagamento de 30, 45, 60 ou 90 dias, dependendo da empresa. A oficina precisa estar preparada para subir degraus.
- Estudos recentes apontam que o mercado brasileiro de manutenção de veículos elétricos pode atingir 5 bilhões até 2030. Como a senhora avalia o impacto dessa transição para as oficinas nos Campos Gerais, inclusive uma projeção para o ano que vem? Como isso impacta nossa região?
Daniele Araújo: Nos últimos anos, a tecnologia e a inovação estão presentes nos veículos. Não é mais o conserto rotineiro diário; a tecnologia avançou muito, trazendo comodidade e segurança para donos de veículos e sociedade. Por exemplo, sistemas ADAS (tecnologias avançadas de assistência ao motorista) preveem colisões, realizam frenagens emergenciais e corrigem desvios de faixa, evitando acidentes como dormir ao volante e colisões traseiras. Essa tecnologia já está presente nas nossas oficinas. Em Ponta Grossa, existe uma única empresa que calibra todos os sistemas ADAS, e muitos veículos da cidade já circulam com esse tipo de tecnologia.
O que fazemos, e continuaremos fazendo, é nos atualizar por meio de treinamentos e conhecimentos nessas tecnologias, para oferecer suporte e serviço com precisão e rapidez ao cliente. As oficinas precisam estar em constante crescimento e atualização. Não é mais como antigamente; o modelo de veículos apenas a combustão não se sustenta mais. A qualificação é o caminho que norteará qualquer tipo de oficina.
- A fábrica da BYD no Brasil deve estar totalmente funcional apenas no final do ano de 2026. Esse atraso é risco ou oportunidade para o setor local?
Daniele Araújo: Vemos como oportunidade. Esse atraso estende o período de adaptação das oficinas, dando tempo para nos qualificarmos, investirmos em capacitação e entendermos melhor esse mercado novo. Algumas empresas acham que isso está muito longe e não vai acontecer no Brasil. Conversando com colegas do setor, entendo que o país ainda não está preparado para carros 100% elétricos; não temos estrutura para isso. Se você sair da nossa cidade para um passeio longo, como ao Nordeste, não há suporte em longos trechos que dê tranquilidade para parar em qualquer lugar. Hoje, não temos essa comodidade 100% elétrica.
Acredito que o carro híbrido é o que vai se consolidar no Brasil. Para chegarmos a 100% elétricos, ainda precisamos caminhar mais, não só como oficinas, mas como estrutura de país. O planejamento empresarial será essencial para evitar exclusão tecnológica. As oficinas devem se adequar e adaptar a esse novo contexto para não ficarem para trás e fecharem as portas.
- E como está hoje o papel do Sindicato nesse fomento à qualificação no setor de reparação?
Daniele Araújo: Para nós, qualificação e requalificação é uma prioridade estratégica. Estamos em parceria com o sistema FIEP, por meio do Senai, para que as empresas do setor tenham acesso a cursos e se profissionalizem.
Buscamos palestras técnicas sobre tudo o que surge de novo no mercado e levamos isso às empresas associadas. Realizamos visitas técnicas, participamos de eventos com temas de atualizações e novidades do setor, sempre alinhando nossos associados às novas tecnologias e às reais necessidades das oficinas.
Por exemplo, em novembro de 2024, participamos de uma missão internacional Prospectiva às Feiras SEMA SHOW e AAPEX 2024, com o objetivo de proporcionar às empresas, experiências em um ecossistema inovador, viabilizar oportunidades para prospectar negócios, tecnologias e conhecimento do mercado americano. Essas feiras acontecem em Las Vegas, EUA, e são realizadas anualmente, sendo a SEMA a maior feira e evento de acessórios, equipamentos e personalização automotiva do mundo, exclusiva para profissionais da indústria, focando em tendências, inovações e customização de veículos para o mercado de reposição (aftermarket), e a AAPEX (Automotive Aftermarket Products Expo) uma feira líder para profissionais da indústria automotiva, que apresenta inovações em produtos e tecnologias automotivas, educação avançada e oportunidades de networking, sendo também voltada para a indústria de reposição automotiva, incluindo peças de reposição, equipamentos e acessórios.
A oportunidade veio através da Federação das Indústrias do Estado de Minas Gerais (FIEMG), por meio da Rede Brasileira de Centros Internacionais de Negócios (CIN), em parceria com a Confederação Nacional da Indústria (CNI) e a Agência Brasileira de Promoção de Exportações e Investimentos (ApexBrasil).
Nestes eventos, conseguimos ver uma outra realidade e trazemos isso para nossos associados. O setor vem crescendo muito em gestão e tecnologia, mas ainda há uma mentalidade remanescente do passado, o que dificulta a adaptação. Tentamos mostrar o que está acontecendo agora e que precisamos correr atrás, mas muitos ainda caminham em passos curtos, esperando o que vai acontecer no mercado.
- O Sindirepa realizou visitas técnicas à NGK e à Tecfil. Quais os principais aprendizados trazidos?
Daniele Araújo: Essas visitas são de extrema importância. Os associados ficam muito satisfeitos quando conseguimos essas missões. São fabricantes presentes no nosso dia a dia, como Tecfil e NGK, que fabricam peças essenciais de uso nas oficinas. Esses encontros, reforçam a importância da gestão de processos.
Vemos a padronização desde a matéria-prima até a embalagem final que chega ao nosso balcão: qualidade, atualização tecnológica. Isso abre horizontes para quem está na rotina da oficina e não tem noção completa disso. Aprendemos orientação técnica, incentivo à profissionalização e gestão. Além da visão técnica da produção, eles enfatizam a importância de trabalhar bem a gestão e a capacitação na oficina.
- No 2º Congresso Nacional da Recuperação de Veículos, realizado em agosto de 2025, promovido pelo Sindirepa Brasil, quais foram as principais pautas defendidas para 2026?
Daniele Araújo: O foco do evento é o futuro das oficinas, gestão de negócios, tecnologia e relacionamento no setor automotivo. O evento reuniu mais de 200 participantes presenciais, incluindo donos de oficina, gestores, consultores e líderes sindicais, com transmissão nacional.
Foram cinco horas intensas de conteúdo e networking, em que oficinas, fornecedores, associações e empresas parceiras se reuniram para debater temas decisivos para o presente e o futuro do setor. Os destaques foram para os temas movimento Right to Repair, que defende o direito de empreender e reparar, tema crucial para a autonomia das oficinas e os impactos da Reforma Tributária, trazendo caminhos para preparar a contabilidade das empresas diante das novas exigências legais. Ainda foram apresentadas provocações práticas e soluções inovadoras, como alternativas para enfrentar a falta de mão de obra qualificada no setor, conectando oficinas a talentos em todo o Brasil e na linha de inovação, com apontamentos importantes de como a Inteligência Artificial e a gestão financeira inteligente já estão transformando o dia a dia das oficinas.
Tratamos no evento, também, o acesso à informação técnica, capacitação profissional, sustentabilidade, modernização das oficinas e, principalmente, a nova tributação. Defendemos o direito de reparar, ou seja, o acesso à informação. Somos muito carentes disso em relação às fabricantes, isto é, recebemos por último e com atraso.
Por exemplo, na minha oficina utilizo contatos consolidados com concessionárias locais. Sem elas, seria quase impossível em muitos casos. Tive um caso relacionado ao sistema ADAS, onde recebi um veículo com erro em virtude de colisão. Programávamos, mas não gravava.
O problema era a instalação de para-brisa paralelo feito em outro local. O ADAS só reconhece original. Esclarecemos isso com ajuda da concessionária, que tem aplicações, módulos, arquivos e programações não disponíveis aos reparadores independentes. Portanto, o nosso desafio é grande.
- O que foi discutido no Congresso Nacional da Recuperação de Veículos sobre questões tributárias?
Daniele Araújo: Sobre a nova tributação, mudará como compramos e vendemos. As oficinas não estão acostumadas a precificar peças e serviços corretamente. São poucas as empresas que elaboram o DRE (Demonstrativo de Resultado do Exercício), relatório essencial para análise financeira. Muitos desconhecem. É o primeiro passo para precificar vendas, mão de obra, peças e gerar créditos para clientes.
A implementação começa em 2026 e termina em 2033. Não podemos deixar para a última hora. Precisamos conversar com o contador para ajustar precificação e adaptar para manter as portas abertas, senão corremos riscos. Isso vale para oficinas de pequeno, médio e grande porte. Tivemos treinamentos via FIEP, com aulas noturnas por profissionais qualificados, mas para leigos em tributos e leis, é complexo. O convívio diário é técnico, por isso a gestão de oficina precisa se fortalecer. O sindicato incentiva isso muito.
- O setor automotivo teme o impacto da taxação em importados? O Sindicato estruturou propostas para governos municipal, estadual e federal?
Daniele Araújo: O possível aumento de preços de peças e veículos preocupa. O sindicato acompanha e defende políticas para concorrência justa, acesso a peças técnicas e proteção ao mercado de reparação independente (fora de concessionárias). Atuamos integrados com a federação e entidades para dialogar com governos. O sistema FIEP mantém articulação para evitar custos elevados, perda de competitividade e riscos à cadeia de autopeças no Paraná. A preocupação é acentuada, mas a maioria dos insumos não vem dos Estados Unidos, então estabelecemos contato melhor que outros setores.
- Qual o apoio do Sindirepa às empresas sindicalizadas?
Daniele Araújo: Oferecemos representatividade institucional, capacitação técnica e gerencial, parcerias estratégicas, orientação jurídica e fortalecimento networking. Nosso papel é preparar empresas para o presente e futuro do setor. O FIEP cobre cerca de 80% do apoio aos associados, sendo parceiro fundamental em frentes que uma empresa sozinha não alcança, como: defesa de interesses em relações governamentais, monitoramento de leis, normas, inscrições tributárias e exigências ambientais. Disponibiliza soluções para internacionalização via Confederação Nacional da Indústria (CNI), com inteligência de mercado, missões e feiras. Cada sindicato tem conselho setorial; o automotivo é um fórum para trocar necessidades na federação, reunindo empresários, montadoras e fornecedores para identificar gargalos e propor soluções à FIEP.
Além disso, podemos citar também o Senai que nos ajuda na capacitação, com cursos de técnico em manutenção automotiva e demais temos de capacitação, incluindo a empresarial, sendo uma referência nacional. Antigamente, todos passavam pelo Senai; hoje, diminuiu pelo desinteresse dos jovens. Não temos mão de obra se formando desde a adolescência. Atualmente, quando precisamos, e preciso, alinhamos junto ao Senai para desenvolver um curso sob demanda, como gestão de oficina ou aperfeiçoamento técnico em determinado tema. O Senai oferece soluções tecnológicas: projetos de inovação em eletrônica embarcada, sensores, melhoria de processos, ensaios, capacitação e editais de fomento. Empresas associadas têm amplo acesso via sindicato.
Contamos também com uma ferramenta muito importante, que é a Jornada da Produtividade, que auxilia as empresas associadas a aumentar a produtividade e a competitividade, e também na melhoria do próprio estabelecimento. O consultor vai à nossa empresa e faz um estudo da forma como a empresa trabalha, e em cima desse estudo desenvolve estratégias para melhorar a forma de trabalhar.
O foco desse programa é eliminar desperdício de tempo, de material, de insumos e tudo mais que a gente utiliza dentro da empresa, e eles criam padrões e processos para a gente começar a seguir. Tudo é estruturado dentro da empresa do associado. Eventualmente existe custo, mas o custo é muito reduzido para a empresa associada. Então vale muito a pena. O retorno depois é muito grande.
Já o SESI é fundamental para nos ajudar a que a mão de obra esteja apta, saudável e segura para trabalhar. O SESI traz para nós soluções do sistema S. O sistema S cuida do trabalhador. Isso só é possível através da empresa estar dentro do Sindicato patronal. Através do Sindicato patronal, a gente consegue proporcionar qualidade de trabalho aos nossos funcionários. Temos as consultas periódicas que são realizadas no decorrer do período de trabalho.
Asseguramos para eles a saúde e a segurança do trabalho. Isso acaba impactando diretamente na própria produtividade deles. Um funcionário que está bem assistido pela empresa tem uma qualidade de trabalho diferenciada. Ainda, a empresa associada ao Sindirepa – Sindicato Patronal, tem acesso diferenciado aos programas de segurança do trabalho, exigidos pelas Normas Regulamentadoras (NRs) do Ministério do Trabalho, que visam prevenir acidentes e doenças ocupacionais através da gestão de riscos. Os principais incluem o PGR (identificação e controle de riscos), PCMSO (saúde do colaborador). Ainda apoiamos os associados na organização da empresa em ralação ao gerenciamento de resíduos, disponibilizando parcerias estratégicas e certificação do Selo Verde que é uma certificação de sustentabilidade que valida produtos, serviços ou empresas com práticas socioambientais responsáveis, visando menor impacto ambiental e conformidade legal.
A empresa associada também tem um apoio jurídico do Sindirepa para eventuais questões do dia a dia, além do que pode contar com uma rede de apoio entre as empresas associadas, a fim de troca de informações, e também tem a sua disposição ferramentas especificas de uso em oficina, pois o Sindirepa as adquiriu especialmente para uso da empresa associada.
- Como é que o sindicato pretende incentivar práticas de sustentabilidade nas oficinas?
Daniele Araújo: A questão da prática de sustentabilidade tem alguns programas no próprio sistema da FIEP. Eles apresentam para nós consultorias empresariais com soluções oferecidas por outras instituições. O Senai oferece uma consultoria em meio ambiente e sustentabilidade. Realizando a gestão ambiental industrial com as oficinas sindicalizadas. Têm disponível laboratórios de ensaio, caso precisemos de alguma norma ambiental que não esteja ao nosso alcance. Precisamos apenas pedir e demandar a necessidade, e o sistema FIEP nos atende nos direciona para cumprirmos de forma correta às normativas ambientais nas áreas de efluentes, emissões atmosféricas e resíduos industriais.
A consultoria que o sistema FIEP presta por intermédio do Sindirepa/Sindicato Patronal permite que as indústrias minimizem o impacto das atividades industriais no meio ambiente. O SESI dispõe de serviços de responsabilidade e sustentabilidade, incluindo negócios em sustentabilidade e capacitação. O SESI oferece consultoria em responsabilidade social ambiental empresarial e orienta as empresas em relação à sustentabilidade, investimento social e diversidade.
Além disso, o Núcleo de Acesso ao Crédito da Fiep faz uma triagem para ver em que momento a empresa está, caso necessite de algum tipo de crédito para questões socioambientais.
Em relação especificamente às oficinas, são várias regras que precisamos seguir. Por exemplo, o descarte de todos os materiais que utilizamos. Nossos materiais não podem ser descartados em qualquer lugar. O óleo contaminado que são retirados dos veículos tem que ter uma destinação e certificado que comprove que a gente fez isso. Todos os materiais que a são substituídos nos veículos – ferro, alumínio, qualquer outro item contaminado como filtros de ar, de óleo, de combustível, enfim, tudo que é retirado do veículo – temos que dar uma destinação especifica e correta. Quando é dada essa destinação, eles também nos entregam certificado para comprovar e consequentemente conseguir tirar a nossa licença ambiental.
Dentro do Sindirepa temos algumas parcerias com empresas que fazem essas coletas para as oficinas, e sendo associada tem valor diferenciado por ser Sindirepa e esse ter a parceria com prestador de serviço. Recentemente, tivemos a questão do Dia do Meio Ambiente e a Prefeitura nos procurou enquanto sindicato para uma fala dentro do evento, relacionado justamente ao descarte. Por quê? Porque estão recebendo muitas denúncias de descarte de óleo e componentes de troca em córregos da nossa cidade. Isso é uma prática que não pode, é completamente proibida, e eles queriam saber de nós como a gente orienta nossos associados e todas essas empresas do nosso setor.
Nossa questão de orientação dos associados é nesse sentido de trazer parcerias para que eles possam empreender da forma certa, destinando e descartando corretamente todo o “lixo” que é produzido dentro da oficina. Temos também parceria, por exemplo, com uma empresa da cidade que reutiliza as embalagens de óleo para fazer vasos de plantas. Eles coletam nas nossas oficinas esses frascos, levam para a empresa deles, fazem toda a produção lá, que passa por vários processos e eles transformam em vasos de plantas que são vendidos para o Brasil todo. A questão da sustentabilidade para o Sindirepa é de extrema importância, e incentivar os nossos associados é o sentido de hábito.
- Quais os desafios de mão de obra?
Daniele Araújo: Enfrentamos uma escassez muito grande. O profissional que é bom está trabalhando e poucas pessoas têm vontade de entrar nessa área de atuação.
Atualmente, para capacitar uma pessoa para nosso setor leva-se alguns anos, e também dependemos do interesse do indivíduo em abraçar a profissão como sua causa e ver que aquilo ali vai realmente fazer a vida dele se transformar.
O que chamávamos de mecânico, hoje denominamos de técnico automotivo. Ser mecânico era uma profissão que era muito valorizada antigamente, porque vinha de pai para filho, de dentro da família. Atualmente, ela está ficando para trás em relação nossos jovens. Eles não têm interesse mais em entrar na profissão, são raros os casos em que demonstrem encantamento pela função.
Juntamente com o sistema FIEP pensamos em maneiras de sensibilizar os jovens para ver a profissão como possibilidade real de trabalho. Atualmente, temos três escolas estaduais disponibilizando curso de nível técnico em manutenção automotiva, ou seja, tentando trazer os jovens para essa área que é tão rica em conhecimento e tecnologia.
- Em relação à questão das tendências para o ano de 2026, você acha que as oficinas vão acabar fazendo essa migração para os modelos híbridos ou para essa especialização avançada?
Daniele Araújo: O híbrido cada vez mais vai entrar nas oficinas mecânicas porque tem muitos que já estão saindo da garantia. Algumas oficinas vão seguir como multimarcas, no caso, que vai ter que atender tanto híbrido quanto a combustão. Os elétricos 100% demandam de uma estrutura bem diferenciada.
Estou falando aqui de uma visão mais regional. A oficina vai precisar de investimento muito alto para trabalhar com carros 100% elétrico. Desde qualificação profissional quanto de materiais, ferramental e estrutura, porque não é só técnico e ferramenta; você tem que ter uma estrutura diferenciada para atender esse tipo de veículo. Algumas oficinas vão trabalhar no modelo multimarcas, enquanto outras provavelmente vão se especializar em nichos mais específicos, mais isso aquelas que estão buscando qualificação desde agora. Daí começa a abrir caminho mais fácil para eventualmente migrar só para veículos 100% elétrico.
- Quais as três prioridades e estratégias do sindicato para o setor em 2026?
Daniele Araújo: Primeiro de tudo é estimular o associativismo, que é uma dificuldade muito grande para o nosso sindicato. Quando você fala em sindicato, você lembra de governo. Algumas pessoas não têm muito conhecimento para diferenciar o que é sindicato patronal do sindicato laboral. Eles colocam tudo dentro do mesmo pacote e para eles é uma coisa só. Então nossa dificuldade começa por aí. A gente vai trabalhar muito forte na estimulação do associativismo.
Em segundo lugar, a gente vai continuar mantendo o foco em treinamento em gestão empresarial porque a partir disso conseguiremos elevar o nível dos empresários. Como temos no sindicato todos os tipos e níveis de empresa, desde a pequena até a grande, a pequena precisa muito mais do sindicato nessa questão de qualificação empresarial.
Também vamos buscar cada vez mais apoio, daí nesse sentido falo em questão de federação (FIEP), em relação ao apoio à modernização das empresas. Especialmente em relação aos híbridos e elétricos, que demandam conhecimento. Articulamos estratégias com o sistema FIEP para essa qualificação, pois é o futuro. Apoio à modernização e sustentabilidade das oficinas é foco principal: capacitação, fortalecimento da categoria e apoio à modernização.